Crise diplomática se agrava após embaixadora do Brasil ter visto revogado nos EUA – Em Dia ES

A revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, anunciada nesta terça-feira, 4 de agosto, elevou a tensão nas relações diplomáticas com os Estados Unidos.
A medida foi tomada pelo governo de Donald Trump sob a justificativa de que as autoridades brasileiras atrasaram a concessão do aval diplomático ao novo representante americano indicado para atuar em Brasília, Daniel Perez.
Em resposta, o Palácio do Planalto classificou a ação como parte de uma escalada de medidas hostis, negou as justificativas de Washington e prometeu adotar o princípio da reciprocidade para lidar com o episódio.
O estopim da nova crise diplomática
Segundo o Departamento de Estado norte-americano, o governo manteve contato com autoridades do país sul-americano durante semanas para destravar a nomeação de Daniel Perez. O argumento é de que todas as oportunidades foram dadas para que a aprovação fosse concedida, mas houve criação de obstáculos. A revogação do documento, no entanto, não implica a deportação imediata de Maria Luiza Ribeiro Viotti.
O órgão esclareceu que ela poderá permanecer no território de forma regular, mas precisará solicitar um novo visto caso decida sair e retornar ao país.
A diplomacia americana indicou ainda que o documento de acesso poderá ser restabelecido assim que a aprovação do nome de Perez for efetivada e justificou a postura com base na política América em Primeiro Lugar, que prioriza interesses dos cidadãos americanos nas decisões externas.
Reação e acusações de interferência
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contestou as alegações, classificando-as como falsas. Em nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, argumentou-se que a gestão de Trump feriu a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas ao divulgar publicamente o nome de seu indicado antes mesmo de obter a anuência formal do país anfitrião.
O comunicado ressalta que o pedido ainda está em análise e que não existe regra internacional que estipule prazo para a concessão do aval diplomático, conhecido formalmente como agrément.
O texto oficial do governo brasileiro repudia a decisão e a insere em um contexto mais amplo de embates, afirmando que a medida faz parte de uma escalada deliberada de ações hostis motivadas por razões ideológicas, que seriam incompatíveis com o respeito mútuo histórico da parceria bilateral. A nota também declarou que “fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”.
Como retaliação, foi agendada para quarta-feira, 5 de agosto, uma reunião com o objetivo de discutir de que forma a reciprocidade será aplicada. A dificuldade enfrentada pelas autoridades reside no fato de que não há, no momento, um embaixador americano ocupando o posto no Brasil.
A representação máxima é exercida pela encarregada de negócios interina, Kimberly Kelly, que não possui o mesmo status. Fontes ligadas ao governo também apontaram que a ação possui um tom eleitoral e exige resposta formal, considerando a medida uma forma de chantagem diplomática. O Itamaraty não planeja convocar Maria Luiza Ribeiro Viotti de volta ao Brasil.
O perfil do indicado à embaixada
Daniel Perez, pivô do impasse, foi indicado pela Casa Branca em junho para assumir a representação no Brasil. Aos 38 anos, o advogado, nascido em Nova York e filho de imigrantes cubanos, atua desde 2024 como presidente da Câmara dos Representantes da Flórida, estado para onde se mudou ainda criança, em 1993. Integrante do Partido Republicano e aliado do atual presidente norte-americano, Perez costuma utilizar o slogan Make America Great Again e defendeu, no início do ano, as operações militares dos Estados Unidos que resultaram na captura do ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, classificando-as como um golpe contra cartéis de drogas.
Durante sabatina na comissão de relações exteriores do Senado norte-americano em meados de julho, Perez destacou a importância estratégica e econômica do território brasileiro, mencionando as vastas reservas de minerais críticos e as parcerias necessárias no combate a organizações criminosas transnacionais e ao tráfico de drogas.
Na mesma ocasião, ele afirmou que, caso aprovado, suas prioridades seriam “apoiar instituições democráticas brasileiras” e “pressionar para condições que permitam eleições livres e justas e liberdade de expressão” no país, além de proteger cidadãos e interesses comerciais americanos.
Durante a mesma audiência, questionado sobre o impacto das novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros, Perez evitou críticas diretas, afirmando que precisaria se informar melhor sobre as decisões do Escritório do Representante de Comércio dos EUA. Caso seja confirmado pelo Senado americano e receba o aval do Brasil, ele será o primeiro embaixador dos Estados Unidos em Brasília desde a saída de Elizabeth Bagley, indicada na gestão de Joe Biden.
Histórico de tensões bilaterais
O atual desgaste ocorre em meio a sanções e retaliações comerciais que se arrastam ao longo do último ano. O Palácio do Planalto recordou que autoridades brasileiras, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal e funcionários do governo, continuam sob sanções da Lei Magnitsky.
Estas punições foram impostas pelo governo Trump em retaliação à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro sob acusações de golpe de Estado, ação que a Casa Branca chamou de caça às bruxas contra conservadores. Durante viagem oficial a Washington em maio deste ano, o presidente Lula solicitou diretamente o levantamento dessas sanções individuais, buscando um entendimento.
O cenário comercial também foi afetado quando, em 16 de julho, os Estados Unidos impuseram tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros, sob a alegação de práticas comerciais desleais.
Anteriormente, as tarifas haviam chegado a 50%. A imprensa internacional tem destacado repetidamente o distanciamento entre as duas maiores economias das Américas, oscilando entre confronto e distensão.
Outro agravante recente nas relações bilaterais foi a recusa do Itamaraty, ocorrida no final de julho, em conceder vistos para Samuel Samson e Riley Barnes, funcionários do Departamento de Estado americano focados nas áreas de Democracia, Direitos Humanos e Liberdade Religiosa.
A viagem tinha como pauta oficial discutir a integridade eleitoral e representantes da sociedade civil brasileira, mas o governo nacional avaliou que a visita tinha o objetivo de colocar em dúvida a confiabilidade do sistema de votação do país. O Departamento de Estado norte-americano rejeitou a acusação e classificou a desconfiança brasileira como uma “mentira sem fundamento”.
Visão de especialistas sobre o rito diplomático
O ex-ministro e embaixador do Brasil em Washington entre 1991 e 1993, Rubens Ricupero, apontou que o governo brasileiro cometeu um erro ao atrasar a concessão do aval a Daniel Perez. Segundo ele, o processo de agrément deveria levar de três a quatro dias a partir do pedido oficial, que foi encaminhado no fim de junho, não havendo justificativas plausíveis para a demora de semanas. “Houve erro do lado brasileiro. Todos os países são soberanos para indicar quem eles querem que os representem”, disse Ricupero.
O embaixador pontuou que o comportamento do Brasil não foi o ideal, especialmente considerando a situação comercial e política já fragilizada.
Apesar da crítica à condução do processo pelo Itamaraty, Ricupero destacou a ausência de precedentes para a atitude norte-americana. “Não conheço nenhum precedente de revogação de visto de embaixador, embaixadora”, afirmou, acrescentando que as operações da representante brasileira ficarão severamente comprometidas sem a documentação.
“Nenhum estrangeiro pode viver normalmente nos Estados Unidos sem visto. A embaixadora não poderá operar e terá que retornar ao Brasil”, explicou, divergindo da posição oficial americana de que Viotti não enfrentaria restrições práticas imediatas. Para o especialista, a justificativa política não minimiza a gravidade do cancelamento.





