Tensão entre Brasil e Argentina expõe contraste em dados de inflação, desemprego e economia; confira – Em Dia ES

O presidente da Argentina, Javier Milei, criticou a política econômica do governo brasileiro durante a convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência no último fim de semana. Em resposta, o ministro da Fazenda do Brasil, Dario Durigan, rebateu as declarações na segunda-feira (27), afirmando que os indicadores nacionais superam os do país vizinho.
O embate político gerou um levantamento comparativo sobre o Produto Interno Bruto, a inflação, o desemprego, a dívida pública e os investimentos estrangeiros das duas nações sul-americanas.
Declarações e a reação do governo brasileiro
Durante o evento formal, Javier Milei afirmou que “o Brasil caminha para uma crise de dívida derivada do fato de que Lula não fez o ajuste fiscal que a situação exigia, e agora está piorando para ter chances de vencer”. O presidente argentino declarou ainda que “o esbanjamento, cedo ou tarde, se paga, e esperemos que pague aquele que o causou, perdendo nas urnas em outubro”.
A fala causou surpresa até mesmo entre apoiadores do ultraliberal presentes no local. A reação do governo federal brasileiro ocorreu no dia 27, quando o ministro Dario Durigan chamou Javier Milei de “palhaço” em entrevista. Durigan defendeu a economia nacional ao declarar que “o risco país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação lá é muito mais alta”.
Diferenças na medição dos indicadores
As comparações diretas entre as duas economias exigem cautela, pois os institutos utilizam metodologias distintas. No Brasil, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, engloba mais de 370 itens em sua cesta de produtos.
Na Argentina, o Indec não atualiza sua forma de medição há mais de vinte anos. Uma tentativa recente de modernizar o modelo foi interrompida pelo governo argentino no início deste ano, resultando na renúncia do presidente do instituto. Os dois governos possuem visões opostas sobre o papel do Estado na economia e os líderes assumiram seus cargos com menos de um ano de diferença, sendo Lula em janeiro de 2023 e Milei em dezembro de 2023.
Produto Interno Bruto e renda per capita
O crescimento do PIB brasileiro desacelerou para 2,30 por cento em 2025, de acordo com o IBGE, após registrar 3 por cento em 2022, 3,2 por cento em 2023 e 3,40 por cento em 2024. Economistas projetam uma redução gradual ao longo de 2026 em decorrência da política monetária restritiva e de possíveis choques externos. A economia argentina apresentou crescimento de 4,4 por cento em 2025, impulsionado pelo consumo privado após dois anos de ajustes fiscais, sucedendo quedas de 1,6 por cento em 2023 e 1,70 por cento em 2024.
Em valores constantes, segundo o Banco Mundial, o PIB brasileiro acumulou alta de 5,6 por cento entre 2023 e 2025, enquanto o argentino avançou 4,37 por cento de 2024 a 2025. Quanto à renda, o PIB per capita da Argentina em 2025 foi de 27,9 mil dólares, superior aos 20 mil dólares alcançados pelo Brasil no mesmo ano, embora o país vizinho permaneça abaixo do seu pico registrado em 2011 e os analistas apontem para duas décadas perdidas.
Inflação e mercado de trabalho
O Brasil encerrou 2025 com inflação de 4,3 por cento, o menor índice anual desde 2018 e abaixo da meta do Banco Central. No entanto, o primeiro semestre de 2026 acumulou 3,36 por cento, o maior para o período desde 2022. Na Argentina, após atingir 211,4 por cento em 2023 e 117,80 por cento em 2024, a inflação caiu para 31,5 por cento em 2025, sendo a mais baixa desde 2017. No primeiro semestre deste ano, o indicador argentino acumula alta de 16,8 por cento.
Desde a posse de Milei, o índice inflacionário acumulado chega a cerca de 235 por cento, enquanto no atual mandato de Lula o registro é próximo de 15 por cento. No setor de empregos, a taxa de desocupação no Brasil caiu para 5,10 por cento no último trimestre de 2025, o menor nível da série histórica iniciada em 2012, mantendo-se em 5,6 por cento na média anual e no trimestre encerrado em maio de 2026. Em contraste, o desemprego na Argentina subiu para 7,5 por cento no final de 2025, o maior nível desde 2020.
Dívida pública e investimentos estrangeiros
A dívida bruta do governo geral do Brasil atingiu 93,30 por cento do PIB em 2025 pelos critérios do Fundo Monetário Internacional, marcando o terceiro ano consecutivo de elevação desde o retorno do atual governo. A dívida argentina recuou para 80,30 por cento no mesmo período, com uma redução de 17,3 bilhões de dólares desde o início do governo Milei. Apesar disso, a classificação de risco brasileira por agências globais permanece a um ou dois passos do grau de investimento, enquanto a argentina fica até cinco passos distante do selo de bom pagador.
No setor de atração de capital, o Brasil foi o terceiro principal destino global de investimento estrangeiro direto em 2025, recebendo 77 bilhões de dólares, o que representa 3,40 por cento de seu PIB. A Argentina captou 3,1 bilhões de dólares, ocupando o último lugar na região, o equivalente a 0,5 por cento do seu PIB em 2025, refletindo dificuldades na criação de um ambiente de negócios voltado ao capital de longo prazo, com investimentos atingindo a mínima histórica.






