Brasil tem razão legítima para desconfiar de interferência dos EUA nas eleições, afirma senador americano – Em Dia ES

O senador democrata estadunidense Tim Kaine afirmou que o Brasil possui motivos legítimos para suspeitar de possíveis tentativas de influência dos Estados Unidos nas eleições presidenciais de 2026. Em entrevista concedida em seu gabinete em Washington à Folha, o parlamentar criticou as posturas e as tarifas econômicas adotadas pelo presidente Donald Trump em relação ao território brasileiro.
De acordo com o político, o governo dos EUA demonstra uma preferência política clara no cenário eleitoral do país sul-americano, embora considerar o caso como uma interferência direta seja uma avaliação forte demais.
Vice-presidente da Subcomissão para o Hemisfério Ocidental do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos, Kaine tem 68 anos, representa o estado da Virgínia e foi candidato a vice-presidente na chapa de Hillary Clinton em 2016. O parlamentar ressaltou que o Brasil pertence aos brasileiros e que o país deve ter total liberdade para fazer suas próprias escolhas nas urnas.
Apreensão eleitoral e negação de vistos
As declarações do senador ocorrem após o governo brasileiro negar vistos de entrada a dois funcionários do Departamento de Estado americano, sob a justificativa de que a viagem poderia promover uma tentativa de intervenção no processo eleitoral.
Para Kaine, a preocupação do Brasil é compreensível, uma vez que Donald Trump fundamentou a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, alegando como justificativa o fato de o ex-presidente Jair Bolsonaro estar sendo processado pela Justiça brasileira.
O senador questionou como uma ação do sistema judicial do Brasil contra um ex-mandatário poderia representar uma emergência nacional capaz de impactar os Estados Unidos.
Segundo ele, o presidente norte-americano atua com favoritismo evidente em relação à política brasileira e expõe de forma explícita a proximidade com a família Bolsonaro, ultrapassando os limites do aceitável ao criticar o Judiciário brasileiro.
Críticas às tarifas econômicas e impacto no comércio
Além das questões políticas, Tim Kaine criticou duramente as sobretaxas comerciais aplicadas por Trump contra o Brasil, classificando as medidas como completamente ilógicas e sugerindo a possibilidade de motivações potencialmente corruptas. Conforme o democrata, a taxação prejudica diretamente as empresas e os consumidores norte-americanos ao elevar os preços de produtos importados.
O parlamentar destacou que os Estados Unidos mantêm um superávit comercial com o Brasil, o que invalida os argumentos usuais de Trump sobre a necessidade de impor tarifas para conter déficits comerciais. Kaine alertou ainda que o conflito comercial estimula o Brasil e o bloco do Mercosul a ampliarem negociações com a China, afastando aliados históricos dos Estados Unidos.
Disputa legislativa no Congresso americano
No ano passado, o Brasil foi alvo de uma sobretaxa de 40 por cento com base na lei de emergência. Na ocasião, Kaine liderou uma iniciativa no Senado americano que conseguiu o apoio de cinco republicanos e levou a Suprema Corte dos Estados Unidos a derrubar a medida. Contudo, o governo Trump voltou a aplicar as tarifas utilizando a seção 301 da legislação comercial.
Segundo o senador, o uso desse novo dispositivo reduz a capacidade do Congresso de contestar a decisão de forma imediata, pois exige a aprovação de um projeto de lei específico que depende da tramitação em comissão presidida por um republicano.
Nomeação de embaixador e cooperação na Amazônia
Em relação às relações diplomáticas, Kaine votou a favor da indicação do republicano Daniel Perez para o cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil durante sabatina no Comitê de Relações Exteriores.
O parlamentar explicou que seu voto não significa apoio à política externa de Trump, mas sim o reconhecimento de que enviar um embaixador confirmado é um sinal de respeito, sendo preferível à vacância do posto, mantida desde janeiro de 2025.
O senador registrou ainda que o combate à ilegalidade e a proteção da Amazônia podem servir de base para a cooperação internacional entre os dois países. Kaine defendeu que os Estados Unidos auxiliem o Brasil na preservação ambiental e na segurança da região, desde que haja total respeito à soberania nacional e alinhamento com o governo brasileiro.





