FBI investiga movimentação milionária da Associação do Futebol Argentino nos EUA

Enquanto a seleção argentina segue na disputa pelo bicampeonato na Copa do Mundo de 2026, a Associação do Futebol Argentino (AFA) tornou-se alvo de uma investigação do FBI e de promotores federais nos Estados Unidos. As autoridades apuram a suspeita de crimes como lavagem de dinheiro, fraude bancária e desvio de recursos envolvendo a movimentação de centenas de milhões de dólares no sistema financeiro norte-americano. A investigação tem como foco os contratos comerciais internacionais da entidade, gerenciados por uma empresa sediada na Flórida, e o suposto repasse irregular de valores para empresas sem finalidade comercial comprovada.
A rota do dinheiro e os contratos internacionais
No centro da apuração está a empresa TourProdEnter LLC, localizada no estado da Flórida e ligada ao produtor teatral Javier Faroni e à sua esposa, a empresária Erica Gillette. A companhia atuava como agente de cobrança dos contratos internacionais da AFA com patrocinadores e parceiros comerciais.
De acordo com documentos bancários obtidos pela investigação, a empresa movimentou pelo menos US$ 260 milhões (com estimativas gerais que chegam a US$ 300 milhões) provenientes de receitas da associação de futebol. Entre os acordos analisados, destacam-se um contrato de US$ 60 milhões com a marca esportiva Adidas e outro de US$ 40 milhões com a produtora Warner.
Os recursos transitaram por contas abertas em cinco grandes instituições financeiras dos Estados Unidos:
- Citibank
- Synovus
- Bank of America
- JP Morgan
- PNC Bank
Suspeitas de desvios e empresas de fachada
O principal ponto de alerta para os investigadores norte-americanos é o destino de aproximadamente US$ 57 milhões. As autoridades constataram que apenas uma parte do montante total movimentado possui despesas operacionais claramente identificadas em favor da AFA. O valor restante teria sido transferido para empresas e beneficiários sem qualquer justificativa econômica clara ou finalidade comercial.
Há suspeitas contundentes de que algumas dessas companhias sejam de fachada. Documentos indicam que essas organizações não prestavam serviços reais e eram controladas por indivíduos registrados como beneficiários de programas de assistência social na Argentina.
Além disso, os investigadores identificaram pagamentos direcionados a duas empresas ligadas ao tesoureiro da AFA, Pablo Toviggino. Também foram registradas transferências para a companheira do tesoureiro, que é parente de Manuel Valdés, conhecido como o “guia espiritual” da seleção argentina de futebol.
Condução do inquérito e depoimentos
O caso teve origem em um alerta enviado às autoridades norte-americanas em setembro de 2024 pelo então Ministério da Segurança da Argentina, na época comandado por Patricia Bullrich. Inicialmente, o FBI considerou não haver elementos suficientes para a abertura de um inquérito. No entanto, o cenário mudou com o surgimento de novas denúncias e documentos bancários, fazendo com que as apurações ganhassem força ao longo de 2025 e chegassem a um novo patamar no início de 2026.
A investigação é conduzida atualmente por promotores federais especializados em crimes financeiros e integridade pública. A equipe é composta por Patrick Gushue (membro da Unidade de Integridade Bancária do Departamento de Justiça) e Christopher Ting, ambos baseados em Washington, além de Michael Berger, que atua no Distrito Sul da Flórida. Berger possui histórico na área, tendo atuado na condenação por lavagem de dinheiro do ex-controlador-geral do Equador em Miami.
Agentes já iniciaram a coleta de depoimentos. O empresário Guillermo Tofoni, CEO da World Eleven (empresa parceira da AFA e licenciada da Fifa para organizar amistosos da Argentina) e autor da denúncia original, foi ouvido por videoconferência. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos também avalia convocar ex-integrantes do governo do presidente Javier Milei que tiveram acesso a informações e fiscalizaram a federação nos últimos anos.
O silêncio da federação
Apesar do avanço das investigações em território norte-americano e do momento decisivo nas quartas de final do torneio, o presidente da AFA, Claudio “Chiqui” Tapia, acompanha a equipe de perto na Copa do Mundo. A Justiça argentina autorizou a viagem de Tapia para o campeonato após o pagamento de uma fiança milionária referente a outro processo, no qual ele responde em seu país por suposta retenção indevida de contribuições previdenciárias e impostos.
Até o momento, a Associação do Futebol Argentino e seus dirigentes não se manifestaram publicamente sobre a investigação do FBI. O inquérito permanece em fase preliminar nos Estados Unidos e, até agora, nenhuma acusação criminal ou denúncia formal foi apresentada contra a entidade ou seus membros.





