Política

EUA bloqueiam bens de brasileiros ligados ao PCC e Brasil contesta sobretaxa comercial

O governo dos Estados Unidos anunciou nesta terça-feira sanções contra dois cidadãos brasileiros e quatro empresas acusados de operar um esquema milionário de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em uma frente diplomática e comercial paralela, a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva envia nesta quarta-feira uma manifestação formal ao governo americano para tentar reverter a proposta de aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos importados do Brasil.

Esquema de lavagem de dinheiro e sanções
A medida contra o crime organizado foi estruturada pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), órgão vinculado ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. O governo de Donald Trump utilizou como base duas ordens executivas presidenciais, a 14059 e a 13224, focadas no combate à proliferação de drogas e no bloqueio a grupos terroristas e seus apoiadores. Desde o fim de maio, a administração em Washington designa o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, considerando a facção paulista como o maior grupo criminoso de todo o Ocidente.

Os principais alvos da operação americana são Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. O Tesouro americano aponta que Shimada operava como o elo central entre integrantes do PCC localizados na Flórida e redes de tráfico internacional. O suspeito teria lavado mais de US$ 30 milhões (cerca de R$ 156 milhões) provenientes de crimes cometidos em cidades dos Estados Unidos por meio de transações com criptomoedas.

Stella é identificada pelas autoridades americanas como secretária e colaboradora próxima de Shimada, sendo a responsável pelo suporte logístico nas operações e pela retirada de grandes volumes financeiros. A reportagem não conseguiu localizar a defesa dos citados ou dos representantes legais das empresas envolvidas até a publicação deste texto.

Empresas de fachada e operações logísticas
Para ocultar os valores enviados ao Brasil e tentar escapar dos mecanismos de fiscalização, o esquema utilizava empresas de fachada para conferir aparência legal às movimentações. Foram sancionadas três companhias registradas em São Paulo: Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda., Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda. e Wave Construções Inteligentes Ltda. O governo americano também puniu a Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda., sediada em Portugal.

Com a decisão, ocorre o bloqueio de todos os bens e interesses patrimoniais dos investigados que estejam nos Estados Unidos ou sob o controle de cidadãos americanos. Pessoas físicas e jurídicas do país ficam proibidas de realizar negócios com os alvos. Instituições estrangeiras que mantiverem relações com o grupo também correm risco de sofrer punições.

O subsecretário do Tesouro para Terrorismo e Inteligência Financeira, Gene Lange, declarou no comunicado oficial que a medida visa proteger o país. “O crime organizado no Ocidente não pode ser autorizado a estabelecer operações em solo americano que contribuam para a criminalidade e a desordem”, afirmou Lange.

As investigações mostram que a atuação do PCC vai além dessa célula. As autoridades identificaram uma segunda operação na qual a facção utilizou uma plataforma de comércio eletrônico e uma rede chinesa de distribuição de eletrônicos para movimentar US$ 190 milhões (R$ 990 milhões) em apenas sete meses. Em janeiro deste ano, o FBI (Polícia Federal americana) já havia prendido seis integrantes do grupo na Flórida, posteriormente denunciados à Justiça Federal.

Governo brasileiro reage a tarifas comerciais
No âmbito econômico, o governo brasileiro finaliza o envio de uma defesa por escrito ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), órgão chefiado por Jamieson Greer. O prazo para a entrega do documento termina nesta quarta-feira e busca contestar o resultado de uma investigação iniciada há um ano.

A apuração americana, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, concluiu que o Brasil mantém práticas consideradas discriminatórias e desarrazoadas. Como retaliação, o USTR propôs aplicar uma tarifa de 25% sobre a importação de produtos brasileiros, resguardando uma lista de exceções. O inquérito foi aberto em julho de 2025 como uma resposta de Donald Trump ao que o presidente republicano classificou como perseguição política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A manifestação brasileira argumenta que a sanção não encontra amparo nas regras de comércio internacional e causa prejuízos aos próprios consumidores americanos. “A Seção 301 autoriza apenas a adoção de medidas ‘apropriadas e viáveis’ para obter a eliminação do ato, da política ou da prática em questão”, destaca a minuta do governo federal, indicando que a taxa não cumpre os requisitos legais.

O Ministério das Relações Exteriores e a área econômica do governo Lula afirmam que a pressão exercida é indiscriminada. “A tarifa proposta não é um instrumento cuidadosamente calibrado para enfrentar a conduta impugnada, mas sim uma medida pouco precisa, cujas consequências econômicas o USTR procura mitigar apenas de forma marginal”, registra o texto. A gestão brasileira alerta que o tarifaço ameaça enfraquecer e inviabilizar o diálogo produtivo entre os dois países.

Defesa do Pix e audiência pública
Entre as justificativas do governo Trump para a adoção do tarifaço estão reclamações variadas, que incluem leis anticorrupção, proteção de propriedade intelectual, desmatamento ilegal, impostos brasileiros sobre o etanol importado e o sistema de pagamentos Pix. O Banco Central do Brasil foi acusado pela administração americana de favorecer o Pix em detrimento de empresas de cartão de crédito estrangeiras. O documento protocolado no USTR rebate a alegação e traz uma defesa técnica detalhada do sistema eletrônico nacional.

O USTR apresentará a decisão final sobre as tarifas em meados de julho, logo após a realização de uma audiência técnica pública, agendada para os dias 6 e 7 de julho, para ouvir as partes interessadas.

O senador Flávio Bolsonaro solicitou inscrição para discursar no evento americano. De acordo com o requerimento apresentado pelo parlamentar, sua fala será contrária à aplicação da sobretaxa. Ele pretende argumentar que a punição econômica beneficia, na prática, a atual administração de Luiz Inácio Lula da Silva, alvo da investigação. A estratégia do senador busca neutralizar as críticas de que as sanções tarifárias contra o Brasil seriam fruto de lobby da família Bolsonaro em Washington.

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