Política

59% apoiam classificar PCC e CV como terroristas, mas 74% rejeitam intervenção dos EUA, mostra Datafolha

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas obteve o apoio, total ou parcial, de 59% dos brasileiros. No entanto, uma pesquisa do Datafolha realizada na última semana mostra que 74% da população rejeita qualquer atuação de agentes norte-americanos contra essas facções no Brasil sem a prévia autorização do governo federal. Os dados ilustram a preocupação nacional com a violência urbana, ao mesmo tempo em que revelam uma forte defesa da soberania do país contra ações não autorizadas de países estrangeiros.

O cenário da segurança e o impacto político
A pesquisa ouviu 2.004 pessoas a partir de 16 anos entre os dias 17 e 18 de junho, em 139 municípios de todo o país. O levantamento, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-09956/2026, tem margem de erro de dois pontos percentuais. De acordo com os dados, 83% dos brasileiros afirmam ter conhecimento da nova classificação adotada pelos Estados Unidos para as maiores facções do país. Desses, 35% se consideram bem informados sobre o assunto e 37% se dizem mais ou menos informados.

A opinião pública se divide de forma acirrada quanto às reais intenções de Washington sob o governo de Donald Trump. Metade dos entrevistados (50%) acredita que os Estados Unidos desejam combater as facções para ajudar a população brasileira. Por outro lado, 47% afirmam que o governo norte-americano utiliza o problema como desculpa para mandar no Brasil.

Essa divisão reflete claramente as preferências partidárias. A crença na ajuda dos EUA atinge 81% entre os simpatizantes do PL e 77% entre os eleitores declarados de Flávio Bolsonaro. Em contrapartida, a suspeita de interferência estrangeira é apontada por 69% dos apoiadores do PT e por 63% dos eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva. A despeito dessa polarização, a percepção de ameaça à soberania nacional unifica a maior parte dos entrevistados, resultando na discordância de 74% sobre a possibilidade de ataques diretos dos EUA no território brasileiro sem aviso.

A percepção sobre a influência de Flávio Bolsonaro
O levantamento também mensurou a leitura do eleitorado sobre o papel de Flávio Bolsonaro na medida adotada pela Casa Branca. Para 54% dos entrevistados, o senador teve influência na decisão americana. Essa convicção é mais expressiva entre os eleitores de Lula (71%) do que entre os eleitores do próprio pré-candidato à Presidência pelo PL (40%).

Dentre os que enxergam a participação do parlamentar, 57% consideram que essa atuação foi negativa para o Brasil. Nesse recorte, a rejeição chega a 77% entre os eleitores de Lula e fica em apenas 18% entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro. Em contrapartida, 37% avaliam a suposta influência de forma positiva, com os índices se invertendo: 77% de aprovação entre os eleitores do senador e 18% entre os apoiadores do candidato petista.

O peso da violência no dia a dia
A aceitação de parte significativa da população à nomenclatura imposta pelos Estados Unidos ocorre em um contexto de vulnerabilidade diante da criminalidade. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado no último mês de maio apontou que 41% da população brasileira vive em áreas onde percebe a influência do crime organizado.

Além disso, em dezembro de 2025, o Datafolha já havia registrado que o problema da segurança e da criminalidade era considerado o maior do país para 16% dos brasileiros, ficando atrás apenas da saúde (20%) e logo à frente da economia (11%).

O que dizem os especialistas
Para Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o apoio popular à classificação internacional reflete “um grito de socorro de uma população que teve suas vidas sequestradas e rotinas alteradas pela atuação de facções”. O especialista ressalta que há “o sentimento de que ao menos alguma coisa está sendo feita”. Ele pontua, contudo, que focar no termo “terrorista” e no endurecimento de penas deixa em segundo plano a dimensão econômica e a rede de lavagem de dinheiro das organizações criminosas. Lima avalia ainda que o cenário evidencia a dificuldade do governo federal em comunicar suas próprias políticas de segurança em andamento.

Maria Hermínia Tavares, cientista política e professora emérita da Universidade de São Paulo (USP), afirma que os dados da pesquisa expõem como a polarização convive com um forte sentimento de autonomia nacional. “Esse tema mexe com patriotismo e com a ideia de que o Brasil é capaz de lidar com seus problemas por conta própria”, afirma. Ela questiona o que terá maior peso nas urnas no próximo pleito eleitoral: a percepção de que os grupos são terroristas ou a visão de que os norte-americanos estão se intrometendo nos assuntos nacionais. Tavares destaca que a eleição testará a credibilidade e a capacidade de cada lado de convencer o eleitor de que será eficaz contra as facções criminosas.

Já o coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP, Leandro Piquet, destaca que parte da população associa o rótulo de terrorismo ao uso de medidas mais severas e militarizadas contra o crime. Ele argumenta que isso não faz sentido no atual cenário jurídico nacional. Segundo Piquet, após a aprovação da Lei Antifacção (15.538/2026), o Brasil possui, hoje, mais instrumentos e meios legais para investigar e punir o crime organizado do que para penalizar o terrorismo. O pesquisador conclui que os números da pesquisa são prejudiciais ao campo da esquerda, uma vez que o posicionamento público se alinha de forma mais favorável ao discurso adotado pela direita.

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