Política

Eduardo Bolsonaro sugere substituir Pix por sistema de pagamento privado dos Estados Unidos

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugeriu nesta quarta-feira (4) que o Brasil apresente o sistema privado estadunidense Zelle como alternativa ao Pix, modelo público e gratuito, em eventuais conversas com os Estados Unidos. A declaração foi feita em um vídeo divulgado na rede social X e tem como objetivo propor uma saída para compor uma mesa de negociação com o governo norte-americano, que anunciou na segunda-feira (1º) uma taxação de 25% sobre as exportações brasileiras.

O ex-parlamentar, que reside atualmente no país norte-americano há mais de um ano e meio, gravou o pronunciamento no contexto das justificativas apresentadas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). No documento que embasa o tarifaço, o governo de Donald Trump questiona as práticas em torno do Pix e acusa o Banco Central do Brasil de favorecer a plataforma ao atuar como regulador e proprietário da ferramenta, limitando as taxas que poderiam ser cobradas por concorrentes estrangeiros.

No vídeo, Eduardo Bolsonaro propõe o mecanismo privado norte-americano como base para as tratativas. “Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos, aqui é o Zelle. Então dá pra você ir pra uma mesa de negociação com os americanos”, declarou o ex-deputado.

Diferenças operacionais entre os sistemas
A sugestão de substituição trazida por Eduardo Bolsonaro expõe as distinções estruturais entre os dois modelos de transferência financeira, que possuem naturezas distintas.

O Pix foi criado e é operado pelo Banco Central do Brasil, constituindo uma infraestrutura pública de pagamentos instantâneos. O sistema brasileiro é obrigatório para as instituições financeiras autorizadas, possui funcionamento ininterrupto (24 horas por dia, sete dias por semana) e garante gratuidade para pessoas físicas. O uso comercial no país é amplo, incluindo integração com empresas, varejo e recolhimento de impostos.

O Zelle, por outro lado, é uma rede de pagamentos digitais lançada em 2017 por um consórcio de grandes bancos privados dos Estados Unidos. Trata-se de uma ferramenta privada cuja oferta depende das instituições participantes. Diferentemente do modelo nacional, o envio de valores não é integralmente gratuito e seu funcionamento está sujeito às regras dos bancos consorciados. O uso nos Estados Unidos concentra-se em transferências cotidianas entre pessoas físicas.

Defesa do modelo pelo setor bancário
A comparação e a menção ao sistema brasileiro pelo governo estadunidense motivaram um posicionamento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), entidade que representa as maiores instituições financeiras nacionais.

Em resposta ao documento do USTR, a Febraban emitiu uma nota apontando as características do modelo desenvolvido no Brasil. “O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e consequentemente da atividade econômica. Trata-se de um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs, instituições financeiras nacionais e estrangeiras”, informou o texto da entidade.

Repercussão política e críticas nas redes
A proposta do ex-deputado de equiparar os sistemas gerou reações entre os usuários de redes sociais. O perfil Allan dos Panos publicou: “Prestar vassalagem trocando o Pix pelo Zelle? kkk”. O termo “vassalagem” figurou entre os tópicos mais comentados na manhã desta quinta-feira. Parlamentares da base do governo também usaram a internet para associar a crise ao recente encontro do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro com Donald Trump, publicando frases como “Tariflávio”, “o Pix é nosso” e “Bolsonaros inimigos do Brasil”.

Em evento realizado em Goiás, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou os irmãos Bolsonaro. “Ele foi pedir arrego. ‘Trump, dá uma porrada no Lula, taxa o Lula, porque o Lula vai ganhar as eleições, não deixa, prejudica o Lula’. Imbecil. Ele não sabe que ele não vai prejudicar o Lula, ele vai prejudicar é o povo brasileiro, os empresários brasileiros, o agronegócio”, discursou o presidente. Lula acrescentou: “Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores que ele. São vendilhões da Pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores”.

Na terça-feira, o senador Flávio Bolsonaro afirmou que pediu diretamente a Trump a não imposição de sanções contra empresas brasileiras. O senador, que também enviou uma carta ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, justificou que a tarifa não é direcionada às empresas. “Quem está sendo tarifado é o presidente Lula: é ele e o seu comportamento, são as suas ameaças aos Estados Unidos e o seu sentimento anti-americano. É a sua ideologia sendo colocada na frente do interesse do povo brasileiro que pode fazer com que as empresas brasileiras sejam mais uma vez tarifadas”, afirmou Flávio.

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