Brasil ameaça revidar novas taxas dos EUA e Lula busca acordo com Trump na cúpula do G7

O governo brasileiro manifestou profunda discordância nesta quarta-feira (3) em relação às conclusões de uma investigação dos Estados Unidos que acusa o país de falhas no combate à importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Como resposta ao relatório norte-americano, que propõe uma sobretaxa aduaneira de 12,5%, o Palácio do Planalto classificou a medida como protecionismo unilateral e anunciou que poderá adotar sanções comerciais equivalentes por meio da Lei da Reciprocidade. O posicionamento oficial ocorre em meio a articulações diplomáticas para tentar resolver o impasse antes do prazo final de aplicação das tarifas, estipulado para 15 de julho de 2026.
Impacto econômico e tarifas acumuladas
A contestação brasileira é uma reação direta ao relatório elaborado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), divulgado na terça-feira (2). O documento concluiu que 59 países, incluindo o Brasil, além da União Europeia, falharam em proibir e fiscalizar a entrada de itens fabricados com mão de obra forçada, sugerindo uma taxação extra de 12,5% sobre todos os produtos dessas nações.
Essa nova penalidade soma-se a outra proposta tarifária apresentada pelos Estados Unidos na segunda-feira (1º), que prevê uma taxa de 25% sob a alegação de práticas comerciais desleais brasileiras envolvendo o sistema Pix, propriedade intelectual e etanol. Caso ambas as medidas entrem em vigor, a sobretaxa acumulada sobre as exportações brasileiras chegará a 37,5%. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que foi surpreendido pelos anúncios, argumentando que o país não recebeu comunicado oficial e que não aceitará o tratamento despendido pelo governo americano.
Argumentos do governo brasileiro
Em nota oficial divulgada pelo Palácio do Planalto e pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, o Executivo considerou absurdo vincular a competitividade da economia do país a insumos obtidos por violações dos direitos humanos. O documento ressalta que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece o Brasil há décadas como referência no combate ao trabalho escravo e compulsório devido às ações de fiscalização, responsabilização e cooperação institucional.
O governo brasileiro informou que enviou manifestações formais e explicações detalhadas sobre sua legislação durante o processo investigativo do USTR. De acordo com as autoridades, a Receita Federal e os órgãos aduaneiros nacionais já possuem amparo legal para barrar e confiscar qualquer mercadoria estrangeira que atente contra a moral, a saúde e a ordem pública, categoria na qual se enquadram os bens gerados por trabalho forçado. Além disso, o comunicado destaca que acordos comerciais firmados pelo Mercosul com o Chile, a União Europeia e a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta) contêm cláusulas rígidas para eliminar tais práticas.
Articulação diplomática e encontro no G7
Para conter os potenciais prejuízos aos empregos e à renda nacional, o governo adota duas frentes de atuação. O Ministério do Trabalho e Emprego colocou-se à disposição para manter a cooperação técnica com o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, enquanto o Ministério das Relações Exteriores busca o consenso por vias técnicas para convencer os americanos a não aplicarem as sanções. Paralelamente, o presidente Lula avalia o envio de uma carta ou a realização de um telefonema para o presidente Donald Trump.
A principal aposta política do Planalto para solucionar o conflito comercial se concentra na cúpula do G7, que ocorrerá em Evian, na França, entre os dias 15 e 17 de junho. Lula confirmou presença no evento após convite do presidente francês, Emmanuel Macron. Embora não exista uma agenda bilateral formalizada, assessores presidenciais apontam que uma conversa direta entre Lula e Trump será inevitável devido ao formato restrito do encontro. O senador Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, manifestou que a aplicação da reciprocidade é um direito legítimo do Estado, mas defendeu que as negociações ocorram com responsabilidade para evitar o agravamento das tensões.
Classificação de facções criminosas
O cenário diplomático entre os dois países também é influenciado por medidas na área de segurança pública. No dia 28 de maio, o Departamento de Estado americano, sob a gestão do secretário Marco Rubio, classificou as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como Terroristas Globais Especialmente Designados. A designação como Organizações Terroristas Estrangeiras está programada para entrar em vigor na próxima sexta-feira (5).
Rubio fundamentou a decisão classificando os grupos como os mais violentos do Brasil, com redes ilícitas que se estendem além das fronteiras sul-americanas. Diante disso, o presidente Lula teceu críticas ao secretário de Estado, chamando-o de latino-americano frustrado durante reunião ministerial. Nos bastidores, contudo, a equipe governamental avalia que a medida teve o aval direto de Donald Trump. O Palácio do Planalto projeta que a classificação dessas organizações criminosas não gerará impactos econômicos imediatos ou prejuízos de curto prazo para o Brasil.





