Política

Lula anuncia Dario Durigan como substituto de Haddad no Ministério da Fazenda

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta quinta-feira (19), durante a 17ª caravana federativa em São Paulo, que Dario Durigan é o novo ministro da Fazenda. O até então secretário-executivo da pasta substitui Fernando Haddad, que formalizou no mesmo evento o seu último dia no cargo para disputar o governo do estado de São Paulo a pedido do próprio presidente. A nomeação consolida uma transição interna, entregando o comando da economia a um nome que já operava como o número dois do ministério e que possui o aval das lideranças do Legislativo.

A confirmação por parte do chefe do Executivo ocorreu enquanto ele cumprimentava políticos e ministros na cerimônia. Ao pedir para Durigan se levantar diante de uma plateia de prefeitos, Lula declarou: “O Dario será o substituto do Haddad no ministério da Fazenda a partir do anúncio do Haddad. Olhe bem para a cara dele que é dele que vocês irão cobrar muitas coisas”. O nome do substituto já havia sido indicado pelo próprio Haddad.

Perfil e articulação no Congresso
Advogado de formação, Dario Durigan ocupava a cadeira de número dois da Fazenda desde junho de 2023. Sua experiência profissional mescla o setor público e a iniciativa privada. Trabalhou com Haddad na Prefeitura de São Paulo e, durante a gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, atuou na subchefia para Assuntos Jurídicos (SAJ) da Casa Civil, onde fez a articulação com o Congresso e assessorou temas de infraestrutura (permaneceu na função entre 2011 e 2025, segundo os dados da sua trajetória). Entre 2020 e 2023, foi diretor de Políticas Públicas do WhatsApp, período que incluiu as eleições de 2022.

No Ministério da Fazenda, Durigan passou a ser comparado a um “CEO” ou “copiloto” por ser o responsável por tocar a máquina da pasta. Descrito como ponderado e técnico, ele é classificado por fontes como um “economista na prática”, capaz de transitar fora de amarras teóricas restritas.

Sua capacidade de diálogo ficou evidente na relação com o Parlamento. Em fevereiro, o presidente da Câmara, Hugo Motta, questionou Durigan em um café da manhã se ele assumiria a pasta. Com a resposta de que estava à disposição de Lula, Motta enviou um recado ao Palácio do Planalto, via líder do governo, José Guimarães: Durigan tinha o apoio do Congresso e era visto como um consenso. Essa interlocução foi fundamental em momentos de tensão, como nos embates sobre o aumento do IOF, a devolução da medida provisória dos créditos de PIS/Cofins, e na viabilização da reforma tributária e do ajuste fiscal focado na arrecadação.

Eixos da nova gestão
Com presença já frequente em reuniões com o presidente Lula no Palácio do Planalto e no Alvorada, Durigan tem como lógica de gestão reforçar o legado deixado por Haddad, evitando sobressaltos que afetem o quadro eleitoral. A interlocutores, o novo ministro destacou que baseará seu trabalho em quatro eixos conceituais:

  • Desenvolvimento forte e inovador: utilização de instrumentos regulatórios para alavancar investimentos;
  • Consolidação fiscal com justiça social: controle do nível de endividamento sem a adoção de medidas drásticas;
  • Segurança pública: manutenção da pressão financeira e estrutural sobre o crime organizado por meio de operações em série;
  • Agenda social: condução equilibrada de debates em evidência, como o fim da jornada “6×1”, para evitar excessos.

O saldo da era Haddad
A saída de Fernando Haddad ocorre em um momento de transição pessoal e política. Setores do governo apontavam que o agora ex-ministro vinha demonstrando perda de motivação com o cargo, situação agravada após as confusões em torno do anúncio do pacote de gastos no fim de 2024 e a crise gerada por notícias falsas envolvendo o PIX no início de 2025. Apesar disso, Haddad deixa a pasta com rejeição política relativamente baixa e com a missão partidária de garantir um palanque competitivo para Lula em São Paulo.

Durante sua gestão, Haddad incorporou o apelido de “Taxad”, utilizado como provocação por críticos, mas ressignificado por ele como um símbolo de cobrança sobre setores que não pagavam impostos. Entre os resultados macroeconômicos de sua passagem estão a aprovação das reformas tributárias do consumo e da renda, avanços microeconômicos (marcos de garantias e crédito consignado privado), desemprego na mínima histórica, inflação média projetada em cerca de 4,5% e média de crescimento anual do PIB próxima a 3%. O não avanço de um plano nacional de desenvolvimento integrado a outros ministérios é citado como uma de suas frustrações.

A divergência sobre o quadro fiscal
A questão fiscal centralizou as críticas à gestão que se encerra. Apesar da redução do déficit primário em relação a 2023 e da aprovação do arcabouço fiscal, a dívida pública saltou de 71,7% em 2022 para uma projeção superior a 80% do PIB neste ano. Além disso, o ritmo de alta dos gastos ficou em 5% acima da inflação, o dobro do previsto na regra fiscal. No final de 2024, as incertezas levaram o dólar a atingir a cotação de R$ 6,30.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, avalia que o saldo de Haddad possui altos e baixos. “Os altos a meu ver se concentram em duas áreas: reforma tributária e trazer à baila a necessária discussão de aumento de imposto da classe mais alta. A nota baixa se dá certamente na gestão fiscal. O arcabouço de partida sempre se mostrou frágil, pois faltava a ponta maior de ajuste nos gastos”, afirmou Vale, criticando o uso da política fiscal para estímulo de curto prazo e a aprovação da PEC da Transição.

Por outro lado, o secretário de política econômica da Fazenda, Guilherme Mello, defende que a gestão conseguiu conciliar crescimento, controle inflacionário e ajuste. Segundo Mello, a expansão da economia sustentou a agenda do ministério, e o alinhamento entre as políticas fiscal e monetária entre o fim de 2024 e o início de 2025 reverteu a alta do câmbio e ancorou a inflação. “No mínimo, o que dá para falar é que a política fiscal do Haddad adiou por três anos alcançar o patamar [de dívida] que o mercado achava que a gente ia alcançar já em 2023”, concluiu o secretário.

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