Flávio Bolsonaro recua, admite contato com Vorcaro e tenta conter desgaste com pedido de CPI

O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), admitiu nesta quinta-feira (14) a existência de diálogos e a captação de recursos com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para o financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A revelação, que ocorreu após o vazamento de áudios e mensagens pelo portal Intercept Brasil, gerou surpresa na cúpula do PL e levou a equipe de campanha a adotar, como estratégia de defesa, o apoio à instalação de uma CPI para investigar as fraudes financeiras atribuídas ao banco de Vorcaro.
O financiamento e o filme “Dark Horse”
De acordo com as informações reveladas, Daniel Vorcaro teria aportado cerca de R$ 61 milhões para a produção do longa-metragem “Dark Horse”, que narra a trajetória de Jair Bolsonaro desde a campanha de 2018. O montante chama a atenção do setor audiovisual por ser superior ao dobro do orçamento de produções premiadas, como “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho.
Flávio Bolsonaro confirmou que os recursos foram direcionados ao Havengate Development Fund, um fundo registrado no Texas (EUA) e representado pelo advogado Paulo Calixto. Segundo o senador, o contato com o banqueiro era “monotemático” e visava exclusivamente viabilizar a homenagem cinematográfica ao pai. “Foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, declarou Flávio, alegando que omitiu a relação anteriormente devido a um contrato de confidencialidade.
Investigação da PF e a conexão com Eduardo Bolsonaro
A Polícia Federal (PF) investiga a hipótese de que parte dos recursos transferidos por empresas ligadas a Vorcaro tenha custeado a permanência do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo vive no Texas desde fevereiro de 2025 e teve seu passaporte diplomático cancelado em dezembro passado.
Em suas redes sociais, Eduardo classificou a suspeita como “tosca”, argumentando que seu status migratório impediria o recebimento desses valores. Flávio Bolsonaro também negou o desvio de finalidade, afirmando que o dinheiro foi integralmente usado na produção cinematográfica. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master, marcou uma reunião de alinhamento com a PF para esta sexta-feira (15).
Reação interna e surpresa no PL
A divulgação dos áudios causou impacto no Partido Liberal. Membros da legenda afirmaram, sob reserva, que acreditavam que Flávio e Vorcaro jamais tivessem se falado, especialmente porque o senador vinha utilizando as fraudes do Master para atacar o governo Lula.
Durante uma reunião de emergência no QG bolsonarista em Brasília, com a presença de Valdemar Costa Neto e Rogério Marinho, o clima foi descrito como de “anestesia”. A estratégia definida foi passar a defender publicamente a CPI do Master para projetar uma imagem de distanciamento e transparência.
Entrave político no Congresso Nacional
Apesar do discurso favorável à investigação por parte de governistas e da oposição, a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ou Mista (CPMI) é considerada improvável nos bastidores. O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), mantém resistência à abertura dos colegiados.
Existem hoje pelo menos quatro requerimentos de investigação engavetados. Aliados do governo e da oposição admitem reservadamente que, em ano eleitoral, uma investigação desse porte poderia “atingir muita gente” e desestabilizar as articulações políticas no Legislativo.
Denúncias de condições precárias no set de filmagem
Mesmo com o vultoso aporte financeiro de Vorcaro, a produção de “Dark Horse” enfrenta denúncias de irregularidades trabalhistas. Um relatório do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo (SATED/SP) detalha 15 ocorrências registradas em dezembro de 2025.
Entre as queixas de figurantes e técnicos brasileiros estão:
- Fornecimento de comida estragada e alimentação insuficiente;
- Atrasos em pagamentos e cachês abaixo do mercado;
- Revistas pessoais consideradas invasivas e abusivas;
- Relato de agressão física no set de gravação.
A produtora GOUP Entertainment, responsável pelo filme, negou em nota ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro ou de empresas sob seu controle e não comentou as denúncias sobre as condições de trabalho até o fechamento desta reportagem.





