ES amplia rede de atendimento contínuo para mais de 51 mil capixabas com TEA

Nesta quinta-feira (02), data em que se marca o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, a Secretaria da Saúde do Espírito Santo (Sesa) detalha a estrutura e a ampliação dos serviços direcionados a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para atender a uma população estadual de 51.328 indivíduos diagnosticados com o transtorno, o Governo do Estado articula o acompanhamento clínico e terapêutico por meio da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência (RCPD), garantindo desde o acolhimento até a reabilitação contínua no Sistema Único de Saúde (SUS).
A eficácia do acompanhamento contínuo reflete-se na prática em unidades como o Serviço Especializado de Reabilitação em Deficiência Intelectual e Autismo (SERDIA) do município de Ibiraçu. Inaugurado em 2024 como uma resposta à necessidade do território capixaba, o local já contabiliza mais de 12,7 mil atendimentos. É nesta unidade que a dona de casa Keyla De Angeli Della Valentina acompanha o filho de 12 anos, diagnosticado com autismo há uma década.
O plano terapêutico do paciente envolve o suporte de uma equipe multiprofissional composta por fonoaudiólogo, psicóloga, fisioterapeuta, assistente social, pediatra e neuropediatra. O atendimento integrado ocorre em um único dia da semana, modelo que otimiza a rotina familiar e evita deslocamentos frequentes.
“Meu filho foi diagnosticado há 10 anos com autismo e é atendido no SERDIA há cerca de um ano. Esse era um sonho antigo e individual pelo qual sempre lutei, por isso acompanhei o projeto do SERDIA em Ibiraçu, ainda no papel, desde o início”, relatou Keyla Valentina.
A mãe ressalta a evolução clínica gerada pela assistência especializada:
“Quando ele chegou, já falava, mas com o fonoaudiólogo melhorou muito a mastigação, a respiração, o tom de voz que era baixo e a dicção. Hoje qualquer pessoa, além de nós, os pais, entende de forma clara o que ele fala. A questão comportamental também melhorou com o apoio da psicóloga, que trabalha em conjunto com a fisioterapeuta. Me sinto segura em deixá-lo no local.”
A coordenadora do SERDIA de Ibiraçu, Branca Castro, afirma que a expressiva demanda recebida desde a implantação da unidade evidencia uma realidade que antes estava invisibilizada. Para ela, as mobilizações em torno do autismo devem ultrapassar o caráter simbólico.
“O Dia Mundial do Autismo precisa ir além de campanhas. Precisa provocar responsabilidade. O autismo não pode ser reduzido a números ou rótulos. O diagnóstico não encerra um processo. Ele inicia uma jornada que exige acesso, continuidade e respeito à singularidade. Quando uma criança é acolhida, uma família inteira respira. E isso muda trajetórias”, pontuou a coordenadora.
Estrutura e portas de entrada no Espírito Santo
No âmbito estadual, a assistência a pessoas com deficiência intelectual e TEA obedece às diretrizes da RCPD, atualizada pela Portaria 1526/2026, que institui a Política Nacional da Atenção Integral à Pessoa com Deficiência.
O Espírito Santo aderiu à rede em 2012 e organiza o sistema de saúde em três níveis de atenção:
- Atenção básica: Porta de entrada do sistema, engloba as Unidades Básicas de Saúde (UBS), equipes de Atenção Primária e Saúde da Família, equipes multiprofissionais e atendimento odontológico;
- Atenção especializada: Concentra os Centros Especializados em Reabilitação (CER), serviços de reabilitação em modalidade única, Centros de Especialidades Odontológicas (CEO) e os polos do SERDIA;
- Atenção hospitalar: Focada na Rede de Urgência e Emergência.
A etapa de diagnóstico, tratamento especializado e concessão de tecnologias assistivas (órteses e próteses) ocorre em um dos seis Centros Especializados em Reabilitação (CER) habilitados pelo Ministério da Saúde. Essas unidades estão distribuídas estrategicamente pelas regiões Norte, Sul, Central e Metropolitana, localizadas em Colatina, Guarapari, Nova Venécia, Mimoso do Sul, Cachoeiro de Itapemirim e no Centro de Reabilitação Física do Espírito Santo (CREFES).
Para ampliar ainda mais a assistência e descentralizar o atendimento, o Estado instituiu em 2022 a Política Estadual de Cofinanciamento do SERDIA (Portaria SESA nº 159-R/2022). A implantação de novos polos ocorre mediante manifestação de interesse das prefeituras. Atualmente, existem 40 serviços habilitados no Espírito Santo, estando 32 deles em pleno funcionamento. A maior parte das unidades foi instalada em instituições filantrópicas que já possuíam histórico de atuação na área, como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e a Associação Pestalozzi, além de instalações municipais próprias.
A inserção de novos pacientes no sistema possui um fluxo regulado pela Secretaria da Saúde. “O acesso aos serviços ocorre pela Atenção Primária à Saúde, por meio da Unidade Básica de Saúde de referência do usuário, responsável pelo encaminhamento via sistema de regulação para os serviços especializados da rede”, explica a terapeuta ocupacional e referência técnica da RCPD/Sesa, Drª Elem Guimarães.
O perfil demográfico do TEA
O dimensionamento da rede estadual baseia-se em indicadores demográficos recentes mapeados pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN). De acordo com o estudo “Censo – Pessoas com Deficiência e Pessoas Diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista”, elaborado em 2025 pela Coordenação de Estatística do órgão a partir dos microdados do Censo 2022, 1,3% da população residente no Espírito Santo possui o diagnóstico do transtorno.
O percentual equivale a 51.328 capixabas e mantém uma proporção similar à média registrada em todo o País. O levantamento aponta que o Brasil possui 1,2% de sua população no espectro, o que corresponde a um contingente de 2.405.337 pessoas.





