Brasil chega ao Oscar 2026 com cinco indicações e reforça nova era global do cinema

Os tapetes vermelhos já não falam apenas o inglês estadunidense. Neste domingo (15), quando as luzes do Dolby Theatre, em Los Angeles, se acenderem para a 98ª edição do Oscar, o mundo verá consolidada uma tendência que vem transformando Hollywood: artistas de fora dos Estados Unidos redefinem o que se entende por protagonismo. Idiomas como coreano, espanhol, francês, alemão e português ganham cada vez mais espaço. O centro criativo do cinema tornou-se múltiplo, e, neste ano, fala português com um sotaque inconfundível.
Desde a vitória histórica de ‘Parasita’, de Bong Joon-ho, como Melhor Filme em 2020, a Academia e a indústria global passaram a reconhecer uma nova lógica: narrativas locais podem conquistar o mundo sem abrir mão de sua identidade cultural. O sucesso de obras como ‘Roma’, de Alfonso Cuarón, e ‘Nada de Novo no Front’, de Edward Berger, reforçou essa mudança e confirmou a diversidade como força do cinema contemporâneo.
Contudo, apesar do avanço de produções internacionais, o Oscar ainda reflete o peso histórico da indústria norte-americana. A maior parte dos indicados nas principais categorias continua vinculada a estúdios dos Estados Unidos, que concentram investimentos, distribuição global e campanhas de premiação. A presença crescente de filmes de outros países indica uma abertura da Academia, mas não altera, por enquanto, a centralidade de Hollywood no sistema cinematográfico mundial.
Mesmo dentro dessa estrutura ainda dominada por Hollywood, alguns países vêm ampliando sua presença na premiação, e o Brasil é um dos exemplos desse movimento recente.
O Brasil no mapa da Academia
A relação do cinema brasileiro com o mercado global e com o Oscar vem de uma longa e pavimentada estrada. Para entender o momento atual, é preciso lembrar das portas abertas por ‘O Pagador de Promessas’ (indicado a Melhor Filme Estrangeiro em 1963), ‘O Quatrilho’ (1996) e ‘O Que É Isso, Companheiro?’ (1998).
O país viveu momentos de comoção global com a histórica indicação de Fernanda Montenegro a Melhor Atriz e de ‘Central do Brasil’ a Melhor Filme Estrangeiro em 1999, seguidos pelo estrondoso impacto de ‘Cidade de Deus’ (2004), que cravou quatro indicações em categorias técnicas e de direção. Ao longo dos anos, o talento brasileiro diversificou sua presença, marcando território na animação (‘O Menino e o Mundo’, 2016) e nos documentários (‘Lixo Extraordinário’, 2011; ‘O Sal da Terra’, 2015; e ‘Democracia em Vertigem’, 2020).
Mais recentemente, no ano passado, o longa ‘Ainda Estou Aqui’, protagonizado por Fernanda Torres, movimentou intensamente a indústria e as campanhas, trazendo a força de um período histórico complexo do Brasil de volta à vitrine do mercado global.
Esse movimento não acontece por acaso. Entre 2015 e 2024, o Brasil realizou 242 obras cinematográficas com coprodução internacional, segundo o estudo Panorama Coproduções Internacionais Brasil 2015‑2024 da ANCINE. Hoje, essas produções representam 10,4% do total de filmes brasileiros destinados à exibição em salas de cinema, provando que o país está ativamente inserido no ecossistema global.
Este ano, o Brasil chega à premiação quebrando recordes e somando cinco indicações no total. O grande destaque é ‘O Agente Secreto’, thriller político dirigido por Kleber Mendonça Filho, que arrematou quatro nomeações, igualando o feito histórico de ‘Cidade de Deus’.
Wagner Moura e o marco inédito para o Brasil
Ambientado no Recife de 1977, durante a ditadura militar, ‘O Agente Secreto’ acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário em fuga de um passado misterioso. Aclamado desde sua estreia no Festival de Cannes em 2025, o longa chega à cerimônia com vitórias no Critics Choice Awards e no Globo de Ouro. No Oscar, a obra disputa nas seguintes categorias:
- Melhor Filme: Pela segunda vez consecutiva, o Brasil figura na categoria principal da noite.
- Melhor Filme Internacional
- Melhor Ator (Wagner Moura): Um momento histórico. Moura é o primeiro ator brasileiro a disputar a estatueta na categoria, juntando-se a Fernanda Montenegro (1999) e Fernanda Torres (2025), que concorreram na versão feminina.
- Melhor Direção de Elenco: A nova categoria da premiação reconhece o brilhante trabalho do diretor de casting brasileiro Gabriel Domingues.
Adolpho Veloso e a estética natural
O recorde brasileiro de 2026 não para por aí. O diretor de fotografia paulista Adolpho Veloso disputa a estatueta de Melhor Fotografia por seu trabalho em ‘Sonhos de Trem’ (Train Dreams), produção americana distribuída pela Netflix e dirigida por Clint Bentley.
Conhecido por seu estilo autêntico, Veloso rodou o longa com 99% de luz natural no noroeste dos Estados Unidos, evocando de forma poética a vida de um lenhador no início do século 20. A indicação coroa uma trajetória que transita entre o mercado nacional (como a minissérie Mosquito) e clipes pop (como ‘Ameianoite’, de Pabllo Vittar e Gloria Groove), provando que os talentos técnicos do Brasil estão no topo da cadeia global de produção.
A fluência como expansão, não como apagamento
O sucesso de produções não-inglesas trouxe também uma mudança profunda no posicionamento dos artistas. Para Carla D’Elia, especialista em Business English e fundadora da Save Me Teacher, essa transformação vai muito além da estética ou do roteiro.
“Quando artistas como o Wagner Moura no Globo de Ouro, ou mesmo o cantor Bad Bunny no Superbowl, fazem um discurso em inglês mantendo sua identidade cultural, eles mostram que a fluência não é sinônimo de neutralização. O idioma se torna muito mais uma ferramenta de expansão, não de apagamento”, afirma a especialista.
Nomes como Penélope Cruz, Antonio Banderas, Yalitza Aparicio e Sandra Hüller são provas de uma indústria que passou a reconhecer o talento global sem exigir uniformidade. Atores latino-americanos e europeus ocupam hoje produções de grande orçamento, negociam contratos mundiais e estrelam campanhas multilíngues sem precisar esconder seus sotaques.
O idioma como ponte estratégica
Para quem trabalha no mercado do entretenimento, essa mudança cultural afeta diretamente a preparação profissional. Carla D’Elia destaca que o domínio do idioma, especialmente o inglês voltado para negócios, ganhou um novo contorno.
“O Business English, quando inserido no contexto artístico, não é sobre tentar parecer norte-americano. É sobre saber conduzir entrevistas internacionais, negociar contratos, participar de coletivas de imprensa e dialogar com executivos e jornalistas do mundo todo com segurança e clareza”, pontua.
Para o Oscar deste ano, a forte presença de profissionais estrangeiros nos bastidores e nas telas indica que o cinema global trocou o foco nas fronteiras pela conexão de histórias universais. A indústria entendeu que a autenticidade gera identificação e, consequentemente, impulsiona bilheterias, streaming, relevância cultural e lucro.
“O talento é local, mas o alcance é global. Quando artistas dominam a comunicação internacional sem abrir mão da própria identidade, eles ampliam as oportunidades e redesenham o mapa do entretenimento”, conclui Carla.
Onde e como assistir ao Oscar 2026
A cerimônia acontece neste domingo
e promete parar a internet com a torcida brasileira. Confira os detalhes da transmissão, que começa a partir das 20h (horário de Brasília):
- TV Aberta: TV Globo (após o Fantástico, pelo segundo ano consecutivo). A apresentação será de Maria Beltrão, com comentários de Waldemar Dalenogare, participação de Dira Paes e tradução simultânea de Anna Viana.
- TV Fechada: TNT.
- Streaming: HBO Max e site do g1





