Saúde

Anvisa alerta para mortes e risco de inflamação grave com uso de ‘canetas emagrecedoras’

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu nesta segunda-feira (9) um alerta de farmacovigilância acerca dos riscos associados ao uso de medicamentos agonistas do receptor GLP‑1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, sem o devido acompanhamento médico. A orientação ocorre em um cenário preocupante: o Brasil investiga seis mortes suspeitas por pancreatite ligadas ao uso desses fármacos, além de mais de 200 casos de pacientes que apresentaram problemas no pâncreas.

O alerta abrange todos os medicamentos que contenham os princípios ativos dulaglutida, liraglutida, semaglutida e tirzepatida. O objetivo da agência é frear o uso indiscriminado, especialmente para fins estéticos ou de emagrecimento rápido sem indicação clínica, prática que expõe pacientes a riscos severos.

Embora o risco de pancreatite já conste nas bulas aprovadas no país, a Anvisa identificou um aumento recente nas notificações de eventos adversos, tanto no cenário nacional quanto internacional. No Reino Unido, a Agência Reguladora de Medicamentos (MHRA) também emitiu comunicado semelhante no início do mês.

Mortes e casos em investigação
De acordo com levantamento da Anvisa obtido pelo portal g1 e repercutido pela Agência Brasil, os seis óbitos sob investigação envolvem as principais marcas disponíveis no mercado. Os registros no painel Vigimed, que reúne as notificações enviadas ao órgão, apontam:

  • 3 casos suspeitos de mortes associadas ao uso de Saxenda;
  • 2 casos suspeitos de mortes associadas ao uso de Ozempic;
  • 1 caso suspeito de morte associada ao uso de Mounjaro.

Além dos óbitos, dados indicam que, entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, foram registradas 145 notificações de suspeitas de eventos adversos. Atualmente, mais de 200 casos de problemas pancreáticos estão sendo analisados.

A agência ressalta que os registros são considerados suspeitos até a conclusão da análise final, processo que pode levar anos. Especialistas ponderam que os pacientes que utilizam esses medicamentos (geralmente para diabetes e obesidade) já possuem, naturalmente, fatores de risco aumentados para o desenvolvimento de pancreatite. A Anvisa também alerta que notificações envolvendo nomes comerciais podem, em alguns casos, tratar-se de produtos falsificados.

O perigo da pancreatite
A pancreatite é a inflamação do pâncreas, órgão vital localizado no abdômen, responsável pela produção de insulina e enzimas digestivas. Quando ocorre a inflamação, essas enzimas podem passar a agredir o próprio órgão.

Os sintomas incluem dor abdominal intensa e persistente (que pode irradiar para as costas), náuseas e vômitos. Em quadros severos, a inflamação pode se espalhar, causar falência de órgãos e levar à morte se não tratada rapidamente.

A orientação da Anvisa é clara: diante de qualquer suspeita de pancreatite, o uso do medicamento deve ser interrompido imediatamente e o paciente deve procurar atendimento médico. Caso o diagnóstico se confirme, o tratamento com a caneta não deve ser retomado.

Uso restrito e novas regras
Atualmente, a maioria dessas canetas é autorizada apenas para tratamento de obesidade e diabetes. Há exceções específicas, como a semaglutida (Wegovy e Ozempic) para redução de risco cardiovascular e o Mounjaro para tratamento de apneia. Qualquer uso fora dessas indicações, o chamado uso off-label para fins puramente estéticos, é contraindicado.

Desde junho de 2025, para tentar coibir o uso indiscriminado, a Anvisa determinou que a venda desses medicamentos em farmácias e drogarias só pode ocorrer com a retenção da receita médica. A prescrição deve ser feita em duas vias e tem validade de até 90 dias.

A agência enfatiza que, apesar do alerta, a relação benefício-risco desses medicamentos permanece favorável quando utilizados conforme as indicações da bula e sob supervisão profissional.

O que dizem as fabricantes
As farmacêuticas responsáveis pelos medicamentos citados reforçaram que os riscos já são comunicados aos pacientes e prescritores:

  • Novo Nordisk (Saxenda e Ozempic): A empresa afirmou que existe uma advertência de classe para todas as terapias baseadas em incretina referente ao risco de pancreatite. Reforçou que a pancreatite aguda está listada como reação adversa nas bulas de todos os seus produtos da classe GLP-1 e que os pacientes devem ser orientados a descontinuar o tratamento em caso de suspeita.
  • Eli Lilly (Mounjaro): A fabricante informou que monitora os registros e que a bula da tirzepatida adverte que a inflamação do pâncreas é uma reação adversa incomum. Aconselha os pacientes a conversarem com seus médicos sobre os sintomas.

Apreensão de lotes irregulares
Além do alerta sanitário, a Anvisa atua no combate ao mercado ilegal. Em 21 de janeiro de 2026, a agência determinou a apreensão e proibição de lotes de Tirzepatida das marcas Synedica e TG, bem como do produto Retatrutida de todas as marcas.

Esses produtos, fabricados por empresas desconhecidas, estavam sendo comercializados irregularmente via Instagram, sem qualquer registro ou garantia de qualidade. A Anvisa orienta que tais produtos não sejam utilizados em nenhuma hipótese.

Histórico de alertas
Este não é o primeiro aviso de segurança emitido pela agência reguladora sobre essa classe de medicamentos. Em 2024, houve alerta sobre riscos de aspiração durante procedimentos anestésicos e, em 2025, sobre casos raros de perda de visão associada à semaglutida.

A Anvisa reforça a importância de que médicos e pacientes notifiquem quaisquer eventos adversos através do sistema VigiMed, permitindo o monitoramento contínuo da segurança desses fármacos no Brasil.

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