Agressões contra mulheres crescem quase 30% em dias de jogos de futebol no Brasil – Em Dia ES

Os registros de violência doméstica contra mulheres disparam em dias de partidas de futebol no Brasil. A segunda edição da pesquisa “Futebol e violência contra a mulher”, lançada nesta terça-feira (11) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em São Paulo, revela que os casos de lesão corporal dolosa crescem 28,9%, enquanto as denúncias de ameaça aumentam 27,4% quando os clubes entram em campo.
O levantamento, que analisou boletins de ocorrência de 2023 a 2025 em cinco capitais do país, confirma o calendário esportivo como um fator de risco comprovado para a população feminina.
Para chegar aos resultados, o estudo cruzou registros policiais e tabelas de jogos da Série A do Campeonato Brasileiro, da Copa Libertadores da América e da Copa Sul-Americana. Foram analisadas as ocorrências nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre.
A pesquisa também considerou variáveis como dias de chuva e de sol, momentos em que a violência doméstica costuma apresentar oscilações de frequência.
Segundo a coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, o esporte não é o causador direto do problema, mas atua como um agravante estrutural.
“O futebol não gera violência doméstica. Mas catalisa para quem já vive em situação de grande vulnerabilidade”, afirmou. A pesquisadora avalia que o conhecimento desses dados deve guiar o planejamento das forças de segurança pública, reforçando o efetivo em Delegacias da Mulher e nas patrulhas de fiscalização de medidas protetivas de urgência.
Jovens e recorte racial da violência
As mulheres jovens despontam como as mais impactadas pelo fenômeno. Na faixa etária de 15 a 29 anos, tanto as ameaças quanto as lesões corporais dolosas apresentam uma alta de 44,4% nos dias de partidas. Quando isolados especificamente os casos ocorridos dentro das residências, as agressões físicas sobem 35,1% e as ameaças, 26,8%.
A pesquisa também incluiu um recorte racial para compreender as dinâmicas sociais da violência. Entre as mulheres brancas, os registros de lesão crescem 30,9% e os de agressão marcam alta de 36,2% em dias de jogos.
Já entre as mulheres negras, o aumento é de 23,2% para lesões e 14,6% para agressões. Juliana Brandão trabalha com a hipótese de que a diferença estatística está ligada às distintas realidades sociais e à normalização da violência.
A coordenadora explica que o futebol gera grande socialização dentro de casa e aponta que mulheres negras costumam estar mais habituadas a esse tipo de violação, de modo que a agressão durante as partidas acaba sendo registrada apenas como mais um episódio contínuo de violência.
Em relação aos dias da semana, o estudo identificou que as agressões físicas, caracterizadas pelas lesões corporais, atingem seus maiores índices de crescimento aos sábados e domingos. Por outro lado, as denúncias de ameaças registram as maiores altas aos domingos, segundas e sextas-feiras.
Piora no cenário em relação a anos anteriores
O levantamento atual seguiu a mesma metodologia da primeira edição, publicada em 2022 com dados referentes ao período de 2015 a 2018. A comparação entre os dois recortes temporais indica um agravamento expressivo do cenário no país. No estudo anterior, o aumento das ameaças era de 23,7% e o das lesões corporais dolosas ficava em 20,8%.
Os novos índices representam um salto de 3,7 pontos percentuais nas ameaças e de 8,1 pontos percentuais nas lesões físicas. A principal mudança apontada pelos pesquisadores é que, nos últimos três anos, a violência física superou numericamente os registros de ameaça.
Recomendações para o enfrentamento do problema
Para mitigar o impacto do calendário esportivo na violência de gênero, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública elaborou dez recomendações que envolvem a responsabilidade do poder público, dos clubes, das federações e das torcidas.
O documento sugere a criação de postos permanentes de denúncia e acolhimento dentro de todos os setores dos estádios, sem a necessidade de deslocamento externo para as vítimas.
O órgão recomenda ainda uma atuação institucional articulada para promover ações sobre masculinidades e o monitoramento rigoroso do cumprimento das medidas protetivas de urgência.
Há propostas para a implementação de estratégias de prevenção focadas na limitação do consumo abusivo de álcool e no impacto das apostas esportivas, apontados no estudo como potenciais catalisadores da violência.
O texto defende também políticas culturais de inclusão nas arquibancadas, o desenvolvimento socioemocional de jovens torcedores e programas contínuos de prevenção voltados à formação de atletas.
Por fim, o estudo orienta a implementação de protocolos internos rigorosos nos clubes para responsabilizar e acompanhar atletas envolvidos em casos de agressão, além do afastamento definitivo de membros de torcidas condenados por violência doméstica.
De acordo com a pesquisa, os times possuem o potencial de atuar como agentes de mudança, utilizando sua influência para desvincular o esporte da violência de gênero.





