Vício em bets atua no cérebro de forma semelhante à cocaína, alerta psicóloga – Em Dia ES

Na manhã desta quarta-feira (30), a Fecomércio-ES apresentou, em Vitória, um levantamento sobre o perfil dos apostadores no Espírito Santo e promoveu um debate acerca dos impactos das apostas online no consumo, na economia e na saúde mental.
Durante o evento, especialistas alertaram que a facilidade de acesso às plataformas amplia o risco de compulsão, altera o comportamento dos usuários e gera consequências diretas no ambiente de trabalho.
O estudo “Bets, consumo e saúde mental: perfil dos apostadores e impactos no Brasil e no Espírito Santo” foi elaborado pelo Observatório de Pesquisa da Fecomércio-ES Connect, em parceria com a FAESA Centro Universitário, o Senac, a Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI), a Fundação de Amparo à Pesquisa e à Inovação (Fapes) e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti-ES). A pesquisa abordou aspectos como idade, renda, raça, religião, valor e frequência das apostas, além do número de pessoas que buscam ajuda psicológica.
Risco de compulsão e acesso contínuo
No debate que se seguiu à apresentação dos dados, a psicóloga clínica Lucélia Aparecida de Paula associou o fenômeno das “bets” ao sistema cerebral de recompensa e à busca imediata por prazer. Segundo a especialista, relatos de pacientes evidenciam semelhanças entre a sensação provocada pelas apostas e a de usuários de drogas.
“Pessoas que experimentaram cocaína e hoje experimentam bets relatam a mesma sensação. Estamos falando do centro de recompensa do cérebro”, afirmou Lucélia.
Embora ressalte que o problema não atinge todos da mesma forma, ela apontou que a disponibilidade permanente das plataformas, facilitada pelo celular e pelo Pix, reduz o intervalo entre o desejo e a ação.
“É como se uma pessoa com vício trabalhasse dentro de um bar e o chefe dissesse: pode beber quando quiser e quanto quiser”, exemplificou a psicóloga.
Para ela, a repetição do comportamento fortalece a associação entre aposta, prazer e recompensa. “A pessoa pode jogar uma vez e não sentir nada. Mas, se começa a jogar todos os dias, isso passa a fazer parte da rotina e pode ativar esse mecanismo de recompensa”.
A profissional destacou ainda que o motivo das apostas vai além do jogo. “Muitas vezes, não é o jogo em si. A pessoa busca um sonho, alívio, prazer ou uma saída para alguma dificuldade”, concluiu.
Reflexos no ambiente corporativo
O debate também abordou os desdobramentos do uso das plataformas no mercado de trabalho. De acordo com a psicóloga e mentora executiva Martha Zouain, as consequências podem ser notadas no comportamento profissional, afetando a saúde mental e a produtividade, especialmente entre famílias de menor renda.
“Cabe aos líderes observarem mudanças de comportamento nas equipes, desde atrasos e irritabilidade até alterações de produtividade e pedidos recorrentes de vale”, orientou Martha. A psicóloga explicou que, embora esses sinais não sirvam para um diagnóstico, eles indicam possíveis dificuldades financeiras ou emocionais.
A recomendação é que as empresas abram canais de diálogo e ofereçam acolhimento, indicando assistência especializada e estabelecendo regras claras sobre o uso de celulares no expediente, sem que a liderança assuma o papel de terapeuta. “Esse apoio precisa vir sem julgamento, porque o julgamento cria um bloqueio e reduz a possibilidade de o empregado se abrir sobre o que acontece”, alertou.
Adoecimento mental e economia
O presidente do Sistema Fecomércio-ES, Idalberto Moro, participou da coletiva de imprensa e enfatizou a necessidade de tratar o tema de forma estratégica dentro das corporações. Segundo ele, os impactos vão além da redução do poder de consumo.
“A informação de qualidade é a nossa principal ferramenta de gestão. Precisamos mapear para entender; entender para agir. Não estamos lidando apenas com a perda de poder de compra, estamos lidando com um problema silencioso que invade as empresas: o adoecimento mental”, declarou Moro.
O presidente da instituição ressaltou a responsabilidade do setor na busca por alternativas.
“O vício em apostas online destrói famílias, gera um endividamento descontrolado e, inevitavelmente, deságua no ambiente corporativo. O trabalhador, quando afetado pela dependência, enfrenta níveis extremos de ansiedade, estresse e depressão. A pesquisa serve para nos ajudar a construir soluções. Investir em dados e cuidar da mente do trabalhador capixaba não é apenas um ato de responsabilidade social, é um imperativo econômico. Proteger as nossas equipes é o caminho para garantir um comércio forte, humano e sustentável”, afirmou.





