Política

Horas após novo tarifaço e ameaças ao Pix, Trump posta foto com Flávio Bolsonaro

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou nesta terça-feira (2) uma fotografia ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tirada no Salão Oval da Casa Branca, em Washington. A manifestação na rede social Truth Social ocorreu horas após o governo americano concluir a investigação da seção 301 e sugerir a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, uma medida que inclui críticas estruturais ao Pix e motivou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a responsabilizar a família Bolsonaro pela retaliação econômica contra o país.

A agenda da família Bolsonaro em Washington
A imagem compartilhada por Trump registra o encontro ocorrido na terça-feira da semana passada, dia 26 de maio. Na publicação, o presidente americano elogiou o parlamentar brasileiro. A foto também exibe o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e o empresário Paulo Figueiredo, que acompanharam as agendas nos Estados Unidos.

“Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca, um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!”, escreveu Donald Trump em sua plataforma digital.

Apesar da coincidência de datas entre a postagem e o anúncio das sanções econômicas, Flávio Bolsonaro sustentou que intercedeu a favor do Brasil durante as reuniões na capital americana. Em entrevista à Rádio Itatiaia, o pré-candidato à Presidência detalhou as conversas.

“Nas três reuniões que nós tivemos, com o presidente Trump, o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio, eu pedi expressamente: não taxem as empresas brasileiras. É um pedido que eu fiz, expresso, a eles”, afirmou o senador.

Durante a viagem, a comitiva brasileira teve um encontro de aproximadamente 30 minutos com o secretário de Estado Marco Rubio na quarta-feira (27) e uma reunião com o vice-presidente JD Vance, na qual, segundo o parlamentar, foram levantadas questões sobre a liberdade de expressão no Brasil. Com Trump, Flávio afirmou ter debatido temas como tarifas e terras raras, além de ter recebido uma “challenge coin” (moeda militar comemorativa). Ele também relatou que o presidente americano perguntou sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, o que classificou como um “gesto humano”.

Outro ponto central da visita foi a área de segurança pública. Flávio prometeu incluir o Brasil no Escudo das Américas, uma coalizão para combater o crime organizado e interferências estrangeiras, caso seja eleito. Ele também solicitou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. O pedido, que contrariava os esforços diplomáticos do governo petista, foi acatado e anunciado por Marco Rubio na quinta-feira, dois dias após o encontro na Casa Branca.

Crise diplomática e a reação do governo federal
O anúncio das tarifas adicionais de 25% irritou o presidente Lula. Durante uma agenda em Salvador nesta terça-feira, o petista associou a punição comercial à visita do senador, chamando Flávio Bolsonaro de “traidor da pátria” e “imbecil”.

A conclusão da investigação da seção 301 pelo Escritório de Comércio dos EUA (USTR) ocorreu de forma antecipada. Em maio, durante uma reunião entre Lula e Trump em Washington, havia sido proposto um grupo de trabalho com prazo de 30 dias para resolver o impasse comercial de forma conjunta. A divulgação preliminar, no entanto, atropelou o cronograma e aconteceu uma semana antes do prazo estipulado. Uma nova audiência está prevista para o início de julho, antes da decisão final que caberá a Trump.

O cenário de distanciamento entre Brasília e Washington foi reforçado por declarações recentes do alto escalão do governo americano. Em audiência no Senado dos Estados Unidos, Marco Rubio posicionou o Brasil fora da zona de aliança do país.

“Com exceção da Nicarágua, de Cuba, obviamente da Venezuela, que ainda enfrenta alguns desafios, e do Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, e, em certa medida, também do atual governo da Colômbia, ou pelo menos de seu presidente, que tem sido problemático, de modo geral trata-se agora de uma região repleta de aliados dos Estados Unidos, de líderes amistosos aos Estados Unidos e de uma direção favorável aos interesses americanos”, declarou o secretário de Estado.

Somado a isso, o governo americano nomeou Daniel Perez, deputado estadual da Flórida, como o novo embaixador no Brasil. Alinhado ao movimento republicano e defensor de pautas da agenda trumpista, Perez apoiou a recente operação que depôs e capturou o ditador venezuelano Nicolás Maduro. O novo diplomata ocupará o posto deixado por Elizabeth Bagley, indicada na gestão de Joe Biden. Atualmente, a missão em Brasília é chefiada pelo encarregado de negócios Gabriel Escobar.

O Pix como alvo das retaliações americanas
A justificativa oficial dos Estados Unidos para a proposta de tarifaço envolve a acusação de que o Brasil adota práticas que oneram e restringem o comércio digital e o pagamento eletrônico. Segundo o governo americano, o Banco Central do Brasil atua, ao mesmo tempo, como regulador e operador do Pix, limitando a ação de empresas e concorrentes norte-americanos. A investigação do USTR foi aberta em julho de 2025.

Nesta terça-feira, a equipe econômica do governo federal repudiou a inclusão do sistema de pagamentos nas pressões internacionais. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, acusou a oposição de atuar contra o mecanismo e cravou que a ferramenta não será objeto de barganha.

“Mais uma vez, a família Bolsonaro faz um movimento contrário ao Pix, e sobre a 301, e mais do que estar fora do debate, ele é símbolo da nossa soberania financeira, orgulho do país, do nosso povo. De fato, inovamos, geramos tecnologia cobiçada pelas regiões que querem um Pix. As pessoas usam com facilidade e interesses privados e particulares se sentem contrariados com essa abertura de meio de pagamento democrático”, defendeu Durigan.

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, classificou a proposta americana como injusta e afirmou que o Brasil recebe as críticas com indignação, definindo o Pix como um “patrimônio nacional”. Na mesma linha, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcio Elias Rosa, garantiu que a soberania tecnológica do país é inegociável.

“O governo com muita transparência e não vai permitir jamais qualquer tema caro à soberania nacional como é o Pix, por exemplo, fique na mesa de negociação e não está na negociação, não há hipótese para isso. E nós vamos sempre possível demonstrar não atendo pro governo norte-americano orçamento do povo brasileiro qual a linha de esclarecimento e defesa do Brasil”, destacou Elias Rosa.

Recordes da ferramenta e expansão no mercado
O ataque ao modelo do Pix acontece no momento de maior capilaridade da ferramenta no Brasil. Dados divulgados pelo Banco Central atestam um crescimento constante desde sua criação, culminando em recordes no ano de 2025:

2021: R$ 5,21 trilhões movimentados.
2022: R$ 10,89 trilhões movimentados.
2023: R$ 17,12 trilhões movimentados.
2024: R$ 26,46 trilhões movimentados em 63,5 bilhões de operações.
2025: R$ 35,36 trilhões movimentados (alta de 33,6% em relação a 2024) em 79,8 bilhões de transferências.

Segundo o diretor de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central, Renato Gomes, a ferramenta incluiu milhares de pessoas no sistema financeiro e hoje é utilizada por quase todos os adultos do país.

Para contornar eventuais limitações tecnológicas e ampliar as opções de crédito, o Banco Central já estuda e implementa novas funcionalidades. Para este ano de 2026, estão previstas a obrigatoriedade da Cobrança Híbrida a partir de novembro (pagamento via QR code ou boleto), o pagamento de Duplicatas escriturais via Pix para facilitar a antecipação de recebíveis e o Split tributário, que adequará a ferramenta ao pagamento de impostos em tempo real com a reforma tributária.

A partir de 2027, condicionado aos recursos do Banco Central, o cronograma prevê o avanço do Pix internacional para interligar sistemas entre países de forma definitiva, o Pix em garantia para que trabalhadores autônomos deem recebíveis futuros como garantia de empréstimos, e o Pix por aproximação (offline), que dispensará a conexão de internet por Wi-Fi ou 5G. Paralelamente, a instituição discute a padronização das regras do Pix Parcelado, visando atender cerca de 60 milhões de brasileiros sem acesso a cartões de crédito e estimular a concorrência bancária com juros mais baixos.

fonte da materia