Brasil pode registrar mais de 1 milhão de novos casos de câncer por ano até 2050

Novas projeções globais divulgadas no contexto do Dia Mundial de Luta contra o Câncer, marcado em 4 de fevereiro, apontam para um aumento expressivo na incidência da doença nas próximas décadas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o Brasil pode saltar para 1,15 milhão de novos diagnósticos anuais até 2050, um crescimento de 83% em relação aos índices de 2022. O cenário nacional acompanha uma tendência global de alta, impulsionada pelo envelhecimento da população e pela prevalência de fatores de risco comportamentais.
A nível mundial, a Agência Internacional para Pesquisa de Câncer (IARC/OMS) estima que os novos casos passem de 20 milhões em 2022 para 35,3 milhões em 2050, um aumento de 77%. Paralelamente, uma análise do Global Burden of Disease Study Cancer Collaborators, publicada nesta quarta-feira (24) na revista científica The Lancet, projeta que as mortes pela doença ultrapassem 18,6 milhões no mesmo período.
Cenário no Brasil e desigualdades regionais
No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) já estima 700 mil novos casos por ano para o triênio 2023–2025. As projeções de longo prazo da OMS, no entanto, indicam um agravamento substancial. Além da alta na incidência, a mortalidade no país também apresenta viés de crescimento: até 2025, o Brasil deve registrar 554 mil mortes, número que representa quase o dobro do observado em anos anteriores.
O estudo publicado na The Lancet destaca que, embora as taxas de mortalidade padronizadas por idade tenham caído 24% globalmente entre 1990 e 2023, principalmente em nações de renda alta, o cenário é inverso em países em desenvolvimento. As taxas de novos casos em países de baixa e média-baixa renda cresceram 24% e 29%, respectivamente.
A Ásia, que abriga 60% da população mundial, concentra cerca de metade dos casos globais e 56% das mortes. Segundo Lisa Force, do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde (IHME) da Universidade de Washington e autora principal da análise na The Lancet, o crescimento é desproporcional em nações com recursos limitados.
“O câncer continua sendo um importante contribuinte para a carga de doenças em todo o mundo e nosso estudo prevê que cresça substancialmente nas próximas décadas. Apesar da clara necessidade de ação, as políticas e a implementação do controle do câncer permanecem subpriorizadas na saúde global”, afirma a pesquisadora.
Fatores de risco modificáveis e prevenção
Cerca de 42% das mortes por câncer ocorridas em 2023 (4,3 milhões) estão ligadas a fatores de risco potencialmente modificáveis, aponta o estudo da The Lancet. O tabagismo permanece como o principal fator isolado, contribuindo para 21% das mortes pela doença em todo o mundo.
A pesquisa detalha as diferenças nos fatores de risco por gênero e condição socioeconômica:
- Homens: As mortes estão mais relacionadas a tabagismo, consumo de álcool, alimentação não saudável, riscos ocupacionais e poluição do ar.
- Mulheres: Os principais fatores são tabagismo, sexo sem proteção, má alimentação, obesidade e alto nível de açúcar no sangue.
- Países de baixa renda: O principal fator de risco identificado foi o sexo sem proteção, responsável por 12,5% das mortes por câncer nessas regiões.
Para Andrezza Barreto, enfermeira da Vuelo Pharma, a prevenção é o ponto central para alterar essas projeções. “Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e o combate ao tabagismo continuam sendo estratégias comprovadas para reduzir riscos. Mas isso só funciona quando há informação de qualidade e acesso real aos serviços de saúde”, explica a especialista.
Theo Vos, coautor do estudo do IHME, reforça que o combate a riscos estabelecidos oferece “enormes oportunidades” para prevenir casos e salvar vidas.
Tipos mais comuns e limitações do estudo
Em 2023, o câncer de mama foi o mais diagnosticado globalmente, enquanto o câncer de traqueia, brônquios e pulmão liderou as causas de morte. O levantamento também revelou que, entre 1990 e 2023, o número de mortes por câncer aumentou 74% e o de novos casos subiu 105% (excluindo cânceres de pele não melanoma).
Os autores da análise na The Lancet observam, contudo, que as estimativas podem estar subestimadas. O estudo não contabilizou o impacto da pandemia de Covid-19, conflitos recentes ou doenças infecciosas ligadas ao câncer comuns em países pobres, como Helicobacter Pylori e Schistosoma haematobium. Além disso, há uma carência de dados de alta qualidade em nações com recursos limitados.
As projeções atuais indicam que o mundo está distante de atingir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que previa reduzir a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis em um terço até 2030.
Meghnath Dhimal, do Conselho de Pesquisa em Saúde do Nepal e coautor do estudo, defende uma abordagem multissetorial urgente. “Existem intervenções econômicas para o câncer em países em todos os estágios de desenvolvimento. Essas estimativas podem ajudar a ampliar a discussão sobre a importância do câncer na agenda global de saúde”, conclui.





